Cemitério Israelita de Cubatão é reaberto com pedido de perdão às “polacas”

O reconhecimento às mulheres judias injustiçadas foi feito neste domingo (30) pelo presidente da Chevra Kadisha na solenidade de reabertura
Depois de quase cem anos, o pedido de perdão chegou às mulheres enterradas no Cemitério Israelita de Cubatão, que passou à história do Brasil como o “Cemitério das Polacas”. Durante a cerimônia de reabertura do cemitério, o presidente da Associação Israelita Chevra Kadisha, Mauro Zaitz, ao lado do historiador Nachman Falbel e do rabino Shie Pasternach, pediu perdão “a estas mulheres injustiçadas”, enfatizando que “esse é o reconhecimento da comunidade israelita. Só tem futuro quem reconhece seus erros passados”.

A importância histórica da preservação do Cemitério Israelita de Cubatão também foi ressaltada pelo prefeito Ademário Oliveira quando afirmou, durante a solenidade, que não medirá esforços da administração pública para que os alunos da rede municipal de educação tenham acesso, não somente ao cemitério israelita, mas à própria história da imigração judaica no Brasil. A própria Associação reafirmou que o intuito é abrir as portas do espaço histórico ao menos uma vez por semana para visitação, projeto que será estruturado ainda este ano.

O historiador Nachman Falbel, professor titular da Universidade de São Paulo, reafirmou que a ética judaica mantém a condenação ao tráfico de mulheres e à prostituição, mas reconheceu que a situação de extrema miséria dos imigrantes do leste europeu no início do século XX foi um fator que facilitou a ação dos marginais responsáveis pelo tráfico de mulheres para o Brasil.

“As polacas”

Atraídas com promessas de emprego e até mesmo de casamento, as judias do leste europeu eram trazidas para o Brasil por traficantes de mulheres, também judeus e também do leste europeu, que as prostituíram. Essas mulheres passaram à história e ficaram conhecidas em todo o Brasil como “as polacas”, porque todas eram muito brancas e loiras. Como trabalhavam no Porto de Santos, esses judeus renegados pela comunidade da região, a partir de 1924 eram enterrados no Cemitério Israelita de Cubatão, na época, escassamente habitado, longe dos olhares indiscretos e, principalmente, preservando a imagem da comunidade judaica. “A questão não era racial e sim social”, adverte a professora e pesquisadora Evânia Martins Alves, de Cubatão. O último sepultamento foi em 1966.

Mesmo à margem da sociedade, montaram uma associação para cuidado de suas famílias e como eram impedidas de sepultarem os corpos dessas judias em cemitérios nas regiões centrais, adquiriram um terreno no espaço onde hoje está instalada a Refinaria de Cubatão. Tempos depois, com a mudança do cemitério municipal para o local onde está agora, o cemitério israelita foi transferido também e, desde então, ocupa um espaço dentro do Cemitério Municipal de Cubatão, com grandes portões de ferro e o símbolo de Israel, a estrela de Davi. As ações sociais dessas mulheres são fruto de estudos acadêmicos até hoje.

Restauro

Depois de décadas em estado de total abandono, sofrendo degradação pela ação do tempo e de vândalos, apesar de tombado em 2010 pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Cubatão – Condepac, o cemitério foi totalmente restaurado pela Associação Israelita em convênio com a Prefeitura de Cubatão, preservando a importância histórica e cultural das sepulturas feitas em cimento, granito e mármore e suas inscrições em hebraico. “Foram restaurados ainda os muros e portões que compõem o cemitério e executadas as obras civil, instalação hidráulica e drenagem”, explicou a gerente da Associação Israelita de São Paulo, Simone Sinnatore.

Atenção especial foi dada à restauração das 69 lápides onde estão enterrados os corpos de 54 mulheres (as “Polacas”) e de 15 homens, todos imigrantes do leste europeu. Do total apenas seis corpos, presumivelmente de mulheres devido à localização das sepulturas, não estão identificados. A Prefeitura de Cubatão fica responsável pela manutenção e preservação da infraestrutura do cemitério e de seus acessos, além da divulgação da importância histórica e cultural e do monitoramento da visitação através das secretarias de Cultura e de Turismo. Sempre que necessário, a associação contratará serviços de restauração.

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